O “Achas” reproduz aqui uma entrevista ao Professor Aníbal Cavaco Silva, candidato à presidência da República portuguesa. Esta entrevista foi realizada na clandestinidade política, a pedido do entrevistado não-político-profissional-que-gostava-de-o-ser, numa cave decrépita, algures num subúrbio lisboeta. Dada a imensa blogosfera nacional, o professor não quis que esta forma nova de fazer ciber-política se tornasse moda e muito menos fosse parar aos media que o apoiam abertamente. Desta forma o nosso convidado sentiu-se à vontade para falar abertamente sobre os principais temas da actualidade.Achas Para a Fogueira – Se for eleito presidente da república quais serão as suas prioridades?
Aníbal Cavaco Silva – Se for eleito as minhas prioridades são passar a falar verdade, combater o défice e o desemprego. Ultimamente tenho lido muito e visto muitos filmes - europeus e não só, mas quase todos muito pornográficos. Em quase todos a verdade é muito importante, por isso esta é uma das minhas linhas mestras. Não quero que os portugueses pensem que só digo coisas para os entreter na campanha; quero também dizer verdades, mas agora não posso.
APF – Só isso?
ACS – Sim.
APF – Mesmo?
ACS - ... sabia que gosto muito de bolo-rei?
APF – Qual a sua posição sobre a Despenalização da Interrupção Voluntária de Gravidez?
ACS – Sabe? Esse é um assunto sobre o qual não gostaria de me pronunciar. É um tema actualmente em debate e do foro pessoal de cada português.
APF – ... ainda assim, deve ter uma opinião...
ACS – Sim. Mas se for eleito as minhas prioridades são passar a falar verdade, combater o défice e o desemprego. A economia tem de avançar é importante falar de economia. Até porque aqui que ninguém nos ouve e também ninguém nos vai ler, é a única coisa de que ainda sei alguma coisita. É para isso que me pagam na universidade onde lecciono.
APF – ... aaaah....
ACS – Quanto a esse assunto, penso que há temas mais importantes para a sociedade portuguesa. Como por exemplo, o desemprego.
APF – Dado o clima de conflitos sociais em crescendo e prevendo um recrudescimento com o previsível aumento do desemprego, como vê o seu papel se for eleito?
ACS – Como sabe, enquanto fui primeiro-ministro tomei muitas medidas contra a contestação social. Arriei nos estudantes, em grevistas, nos polícias... em quase toda a gente, como vê. Além disso, é preciso controlar o défice...
APF – Sabendo que as políticas sociais de educação, de saúde, justiça, etc. São sempre sentidas a longo prazo e visto que actualmente estamos na merda podemos dizer que a culpa de Portugal estar no estado em que está é culpa sua.
ACS – É verdade. Esse é um tema que irei abordar assim que for eleito, pois tenciono falar verdade. Agora não é oportuno...
APF – ‘tou a ver. Mas temos muitas auto-estradas... Se me permite a metáfora, Portugal é agora um organismo onde temos excelentes veias, mas o sangue que nele circula está completamente deteriorado e os glóbulos vermelhos estão claramente doentes. Tem um comentário?
ACS – Eu sei. Mas não podia fazer um figuraço perante a Europa com pessoas cultas. A única coisa que se via eram as estradas e as obras de construção. Por isso a minha escolha foi favorecer os meus amigos através de subsídios europeus, leis que beneficiam todos menos os que precisam. Quase todos eles conseguiram comprar carros de alta cilindrada, montes no Alentejo e ficar bem na vida... sabe que me preocupo muito com os desempregados. O défice é muito importante.
APF – Certo. E o Iraque?
ACS – O Iraque é um problema. Tem lá montes de petróleo, mas os iraquianos não deixam os americanos ir para lá. Ainda tentaram descobrir umas armas de destruição maciça, mas a única destruição maciça foi criada pelos próprios americanos, que são muito bons nisso.
APF – Sendo a economia um dos seus principais argumentos nesta campanha, como pensa actuar nesta área?
ACS – Pois, a esse nível tenho dito muita coisa, mas na realidade não vou poder fazer nada porque essa é a área de actuação do governo legitimamente eleito. Além disso eu gosto bastante da política neo-liberal de pseudo-esquerda do governo Sócrates.
APF – Quais as principais críticas aos seus opositores?
ACS – Sou muito crítico. Todos eles são de esquerda e têm ideias para um Portugal de futuro. Por isso sou contra todos eles... e se for eleito vou debater-me por ajudar a reduzir o desemprego, a combater o défice e a reerguer a economia.
APF – Se for eleito, como vê a sua relação com o déspota que define os destinos da Madeira?
ACS – Vou continuar a fazer nada e a achar muita piada aos seus disparates periódicos. Vou até propor que ele tenha um espaço regular no Levanta-te e Ri.
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