quarta-feira, setembro 19, 2007

Burrices de quem as diz

A revista Sábado na sua edição de 13 de Setembro publicou uma separata especial intitulada “Pós Graduações – Estude mais para não ser um (burro)”; esta ultima palavra é uma simpática foto de jumento.Entre diversas reportagens saliento a “10 Razões para ir além de uma licenciatura”, um exemplo de palermice total em forma de coisa séria, mas enganadora. Referem eles 10 pontos/razões para fazer mais do que a licenciatura. 10 disparates digo eu; 10 argumentos de quem, em minha opinião não sabe do que fala. Procuro aqui refutar a palermice assinada por Patrícia Carvalho. Suplico alguma pachorra para ler tudo isto...
  1. Evoluir na carreira – “a licenciatura perdeu valor” e “é importante para ser competitivo” são um engano; a licenciatura vale e tem o seu lugar, ainda que reformulada segundo os padrões de Bolonha; ser competitivo tem mais a ver com mérito do que com o grau e o título académico obtido, caso contrário não se justificava que houvessem tantos incompetentes “doutoures” a tomar decisões estúpidas em empresas e no governo.
  2. Obter melhor ordenado – “mais qualificações, melhor emprego, melhor ordenado” é do mais desonesto que se pode dizer, ainda que com a resalva escrita da autora, pois sabemos que por cá, quanto mais barato e mais iletrado, maior o valor do trabalhador. Não se querem cá cabeças pensantes que questionem o status quo.
  3. Aprofundar conhecimentos – este é o menos controverso dos argumentos; sim, estes graus serves para aprofundar conhecimentos, mas não só; servem essencialmente para gerar algo novo (isto é ciência) e não para fornecer mais do mesmo.
  4. Exercitar o cérebro – um mestrado ou um doutoramento não são um passatempo, um sudoku, uma obra de literatura, nem mesmo um conhecimento de concurso; ambos os graus (falo por experiência própria) exigem inovação, algo de genialidade e sangue, suor e lágrimas, numa caminhada longa de mais de 2 anos.
  5. Promover a criatividade – sim promove... mas para ser criativo não é necessário ser mestre, doutor ou outro título qualquer; ser criativo implica principalmente não ser acomodado e buscar sempre a novidade técnica ou científica, pela originalidade e evolução.
  6. Fazer valer o seu ponto de vista – não é por este motivo que se deve procurar obter um destes graus; lutar por um ponto de vista (o nosso) deve ser feito ainda que sejamos trolhas, neurocirurgiões ou barbeiros e apenas porque a razão está do nosso lado; não conta o prefixo académico obtido.
  7. Ganhar independência – a independência ganha-se ao longo desse longo processo que é a escola da vida (educação dos pais, família, escola, amigos, etc.); não é um conjunto de disciplinas que nos fornecem uma equivalência em “Parabéns Safaste-te Apesar das Adversidades”; a independência além disso conquista-se através da seriedade e competência profissional.
  8. Alargar horizontes – Certo, pode-se alargar horizontes num programa Erasmus, num doutoramento no estrangeiro; mas não se alargam também numas férias bem passadas? À aventura com os amigos de mochila ás costas? Ler um livro maldito? Ver sites proibídos na internet? Numa tertúlia de café?
  9. Ver ideias nascer – Certamente é nos estudos pós graduados que nascem ideias, que se confrontam correntes de pensamento, que nos é permitido questionarm uita coisa e ver surgir elementos que fazem mexer os neurónios.
  10. E claro, sonhar com um Nobel – Desculpe, importa-se de repetir? Onde apareceu tamanho disparate para justificar tirar um doutoramento?

2 comentários:

Tiago Hipolito disse...

Caro amigo,

Realmente concordo contigo. Tirar um mestrado, ou doutoramento, requer muitas lágrimas e muito suor. Na realidade, a licenciatura começa agora a ficar banalizada, não por ser mais fácil, mas sim por ser mais vulgar… mas não requer também lágrimas e suor??
Será que a licenciatura do meu amigo foi fácil?

E quanto à experiencia profissional ser mais válida do que um doutoramento, mestrado ou licenciatura… 1 pergunta:
Será que o meu amigo ia desejar ser operado ao coração por alguém que não tivesse tirado o curso de medicina e especialidade de cirurgia?

Quando o meu amigo fala em “experiência própria”, questiono novamente: O que o levou a tirar o Mestrado??

Pergunto-me a mim mesmo, onde está agora as “…férias bem passadas? À aventura com os amigos de mochila ás costas? Ler um livro maldito? Ver sites proibídos na internet? Numa tertúlia de café? …” de certeza que a resposta à minha pergunta deve estar por aqui…

Evidentemente que no mundo em que vivemos, para sobreviver e vencer no mercado de trabalho, será necessário a apresentação dum curriculum, o qual necessita de cursos específicos como prova do que se fez ou, supostamente, se sabe fazer alguma coisa… um mestrado ou doutoramento, mais que um titulo, e porque não é o mesmo que fazer um sodoku, é uma verdadeira prova de alguém que passou bastante tempo dedicado a um propósito e com um determinado fim… alguém que sacrificou muita coisa para conseguir concluir um projecto (agora sou eu que falo por experiencia própria)…

Então o que está mal?
Quanto mim, o que verdadeiramente está mal, é simplesmente sofrermos de um problema de gestão! A verdade é que não se faz um trabalho de casa. Tiram-se cursos por tirar e criam-se especialistas em áreas que não faz sentido criar.
Para que serve um licenciado em informática numa região onde não exista e não se aspira vir existir computadores, ou um geólogo a vender gelados?? Ou melhor, para que serve alguém ir tirar uma licenciatura/mestrado/doutoramento em turismo, porque pensa que será o curso mais fácil só para ficar com um título?

É necessário criar um acompanhamento pré-curso e não apenas tentar solucionar os problemas quando já está tudo mal.
Se temos excesso de advogados então não vamos promover licenciaturas em direito, assim só irá para direito apenas quem quer mesmo ir… se temos falta de professores de matemática então vamos promover este curso…

Houve alguém que disse: “o povo é burro…”, pois bem, então vamos tentar encontrar meios para inverter a situação, não apenas dar palha para os alimentar…

achasprafogueir@ disse...

Será que a licenciatura do meu amigo foi fácil? – Foi... não me posso queixar.

Será que o meu amigo ia desejar ser operado ao coração por alguém que não tivesse tirado o curso de medicina e especialidade de cirurgia? – Eh pá, desde que não seja espanhol, ou romeno, do CDS, PS ou PSD. Fora isso pode ser qualquer um, excepto do Benfica...

Quando o meu amigo fala em “experiência própria”, questiono novamente: O que o levou a tirar o Mestrado?? – Eu tirei o Mestrado para conhecer gajas... foi lá que conheci a minha mulher.